
Rúben Prey está a viver o ano de estreia no basquetebol universitário norte-americano ao serviço da St. John’s University, onde integra o plantel dos Red Storm. Com apenas 20 anos, o jovem português já conquistou o título da fase regular e o torneio de uma das mais disputadas conferências do basquetebol universitário norte-americano – a Big East. Agora, segue em frente no March Madness com a ambição bem definida: “ganhar tudo!”.
Numa entrevista exclusiva para a Hoopers, o promissor Rúben Prey anteviu a participação no torneio mais imprevisivel do Basquetebol mundial, havendo ainda tempo para refletir sobre a temporada de estreia na NCAA e sobre o seu futuro em solo norte-americano.
A vitória clara frente a Omaha (83-53) no arranque do torneio, reforçou o momento positivo da equipa. Foi o décimo triunfo consecutivo para os Red Storm e um recorde de pontos em contexto March Madness para Rick Pitino e os seus pupilos. Prey saiu do banco e somou 13 minutos em campo, finalizando a partida com seis pontos, dois ressaltos e dois roubos de bola — números que espelham bem o contributo, assim como o potencial que o português tem vindo a desenvolver nesta temporada de estreia na NCAA.

“Já vivo longe de casa há muito tempo, mas em Espanha era apenas uma hora de diferença. Agora é diferente… falar com amigos e família a partir das sete da tarde já começa a ser tarde. Tive de me adaptar a isso”, confessa, ao falar sobre a mudança para os Estados Unidos. Quanto à gastronomia, considera que não é ideal, mas que não há nada como casa: “Não é má (a alimentação), mas tenho saudades da comida de casa. Normalmente como sempre na Universidade”, confessou.
Apesar disso, garante sentir-se bem integrado nesta nova realidade: “Às vezes passo em casa de alguns colegas, ajudaram-me sempre. Há muita entreajuda no grupo todo. Sinto-me muito bem aqui e dou-me bem com toda a gente.” O ambiente dentro da equipa é positivo, mas competitivo. Desde o início do verão que o grupo definiu as metas para a temporada e não podiam deixar de ser mais ambiciosas. “Assim que começou a pré-época, estabelecemos que queríamos ganhar tudo. O coach (Rick Pitino) perguntou-nos quais eram as nossas expectativas… se conseguíamos chegar à Elite Eight ou à Final Four. Respondemos que o objetivo é mesmo ganhar tudo. Dois terços do objetivo já foram cumpridos, falta o resto.”
Prey fala com respeito e admiração do treinador Rick Pitino, conhecido pelo seu estilo exigente e já com uma vasta carreira no Basquetebol, seja ele norte-americano ou europeu, onde orientou o Panathinaikos e a Seleção grega: “É um treinador duro, muito exigente, sobretudo dentro de campo e nos treinos, mas não me importo. Fora de campo ajuda-nos em tudo, no que precisarmos… é muito tranquilo e uma boa pessoa. Há que saber lidar com a pressão e com o trabalho, faz parte. Gosto imenso de jogar para ele!”
Apesar de querer somar mais minutos, o jovem interior português entende o processo: “Gostava de jogar mais (risos)… mas é o meu primeiro ano aqui. Tenho muito para aprender e trabalhar. Acredito que estou a evoluir a cada dia que passa e em todo o processo. Acredito no treinador e no plano que ele tem estabelecido para mim.”
A adaptação ao estilo de jogo norte-americano tem sido desafiante, mas motivadora para o ex-Joventut Badalona (ACB). “Melhorei a minha defesa das posições exteriores. O jogo é mais rápido, na minha opinião, e o nosso estilo também promove essa movimentação mais rápida dentro de campo. A parte física também melhorei, mas há trabalho a fazer, como no lançamento que vou poder desenvolver ainda mais durante o Verão. Sei que é algo que ainda tenho muito que trabalhar.”
A vida fora dos jogos e das viagens é marcada por uma rotina apertada e intensa, dividida entre o treino e os compromissos académicos. “De vez em quando vou até Nova Iorque, mas de facto é uma rotina muito programada. Viajamos muito e, portanto, temos muitos mais trabalhos do que propriamente aulas. Acordo às 8h30, tenho aulas às 9h15, mas como vivo perto são cinco minutos a pé. Às 10h30 já estou despachado da aula, depois sigo para o treino, técnica individual, lançamento, etc… às 11 e pouco já terminei e vou almoçar. Regresso para o scouting às 14h e até às 17h continuamos a treinar. Depois dou por ‘terminado’ o meu dia. Claro que ainda tenho de me dedicar à parte académica no tempo que sobra!”.
Sobre a experiência de estar a jogar numa das equipas mais badaladas do Basquetebol universitário norte-americano, Prey não esconde o entusiasmo e recorda a participação no “The Tonight Show” do comediante Jimmy Fallon: “Não deu tempo para estar com ele, mas ainda tiramos algumas fotos e falámos um pouco. Gostei da experiência!”
Apesar do estatuto dos jogadores, o ambiente no campus é descontraído, mesmo que seja inevitável ser um dos elementos mais conhecidos entre os seus pares. “Temos um estatuto diferenciado, mas conseguimos andar tranquilamente no campus (risos)… sabem quem somos, mas não nos incomodam. É um excelente ambiente.”
Rúben recorda o primeiro momento em que sentiu que fazia parte desta nova realidade, o seu “welcome to the NCAA moment”: “Foi quando viajámos para as Bahamas e jogámos o Baha Mar Hoops Championship, mas também me recordo que o primeiro jogo em Providence foi especial. O pavilhão estava a abarrotar e o ambiente foi incrível. Quando começámos a jogar no Garden as coisas mudaram e também começámos a ter boas ‘casas’. É uma sensação sempre especial jogar com tanto público a ver.”
O “Garden”, aliás, ocupa um lugar especial no seu imaginário: “Sempre sonhei jogar no Madison Square Garden, com o pavilhão cheio. Sei que não é NBA, mas a vibração é inacreditável, sobretudo num ambiente destes, de basquetebol universitário.”

Com uma carreira diferenciada para um jogador português, desde muito cedo que o extremo-poste luso “vive” uma realidade diferenciada. Integrado na formação do Joventut de Badalona, Prey não esconde que os anos em Espanha (sobretudo as últimas temporadas já integradas na equipa sénior), assim como a chamada à Seleção Nacional têm sido uma vantagem nos momentos mais complicados. “Toda a experiência que consegui adquirir na Europa tem sido uma mais-valia para mim. Em momentos de maior pressão consigo manter-me calmo. O tempo que passei na Seleção e no Joventut ajudaram-me imenso a assumir a responsabilidade de pisar estes palcos e a lidar com a pressão.”
Quanto ao futuro, mantém os pés bem assentes na terra e no presente: “Tenho a NBA na cabeça, mas não penso muito no futuro, mas sim no presente, onde estou agora. Ainda não me vejo com nível NBA, vou continuar a trabalhar para melhorar e, depois, quando chegar o momento saberei quando dar o salto. Passo a passo”.
Sobre os possíveis adversários que esta primeira incursão no March Madness pode trazer, há um nome que gostava particularmente de enfrentar: “Gostava de me cruzar com o Cooper Flagg, ter a oportunidade de jogar contra Duke. No entanto, jogar contra qualquer equipa do top 10 é uma loucura, são todas muito fortes. A grande diferença é mesmo o facto de ser apenas um jogo. Não sei até onde podemos chegar, ou até mesmo Duke, porque há sempre surpresas. Nós sabemos o que queremos, mas também sabemos que nem sempre a melhor equipa ganha. Tennessee joga bem também, há muitos candidatos… Não consigo prever, sequer, uma Final Four. Se este torneio fosse jogado três vezes, muito provavelmente teria três vencedores diferentes”, explicou.
Dentro de campo, a receita para o sucesso da equipa passa pela coesão defensiva e pelo aproveitamento ofensivo que já se fez sentir no jogo de estreia diante Omaha: “Se conseguirmos estar conectados na defesa e se no ataque trabalharmos bem o ‘spacing’, conseguimos melhores lançamentos. É a chave do nosso jogo enquanto equipa.”

A relação com o lendário Rick Pitino, é algo que o #17 dos Red Storm desmistificou. Para o treinador de 72 anos, são claras as expectativas para a jovem promessa do Basquetebol português. “O feedback que tenho é positivo, o coach já me disse imensas vezes que gosta do meu ritmo, da energia que consigo trazer à equipa. Elogia a minha capacidade para defender várias posições, o que ajuda a equipa a ser mais versátil do ponto de vista defensivo. Podemos trocar mais vezes. Quer que eu melhore o meu lançamento durante o Verão. São alguns dos aspetos sobre os quais já conversamos.”
Ciente do caminho que tem de percorrer e acima de tudo focado na tarefa de ajudar St. John’s a chegar o mais longe possível no March Madness, Prey aproveitou e deixou ainda uma mensagem a quem segue de perto a sua ainda curta, mas promissora carreira: “Nunca desistam dos vossos sonhos, do que gostam de fazer. Mesmo quando não corre bem, é preciso manter a confiança. Confiem em vocês mesmos e nas vossas capacidades. É preciso sonhar alto”, concluiu.
Depois de Omaha, segue-se Arkansas (sábado, 18h40), equipa orientada pelo lendário John Calipari e que surpreendeu ao superar a poderosa equipa de Kansas. Março e a sua “loucura” já estão em andamento e nada melhor do que contar com presença portuguesa no torneio mais eletrizante do basquetebol norte-americano!